Senta que vem história comprida.Eu fiquei grávida sem querer aos 23 anos. E fiquei completamente perdida.
A verdade, é que eu não tinha nenhuma desculpa plausível para ter engravidado - sempre tive muita informação, e sou do tipo controlador, como vcs bem sabem. Pedi à minha mãe para me levar ao médico para tomar pílula aos 16, mesmo virgem, só para prevenir. Nunca fui de esquecer; e esquecendo, me prevenia tb.
Confesso: na minha cabeça, essas meninas que viviam achando que poderiam estar grávidas, ou que engravidavam sem planejamento, sem querer, eram umas retardadas. Ou perdedoras totais. Ou estavam dando o golpe.
Paguei a língua.
Eu juro que não sabia que se engravidava menstruada. Fui pega totalmente de surpresa.
E fiquei com tanta vergonha, tão passada, que nem contar eu conseguia. Pra minha mãe foi pior - não que ela não tivesse sido
ABSOLUTAMENTE compreensiva desde o primeiro minuto. Mas por causa de vergonha da mancada mesmo, sabe? Como eu, tão metida a inteligente, tão cheia de planos, tinha caído numa dessas?!
O momento não poderia ser menos propício - nós namorávamos há 2 anos, mas só queríamos saber de gandaia. Duas crianças. Os dois faziam faculdade, eram duros; eu vivia de mesada, ele tinha acabado de montar uma empresa com o amigo. No sótão. Com computadores velhos, rsrsr.
Casar, bebê.... nada disso passava na nossa cabeça, nem remotamente.
(tou tentando resumir, mas tá difícil, rsrs)
Nunca passou pela minha cabeça
não ficar com o bebê. Desde o primeiro segundo, ele era meu. O que me surpreendeu tb demais. Eu era - dentre todas as minhas amigas - a menos materna. A que demoraria mais a casar e ter filhos. A que se achava "
A" rebelde, independente. Tatuada. Enfim.
Eu era tão boba, tão romântica e cheia de princípios, tão estóica....
A idéia do B se sentir obrigado a alguma coisa, me dava arrepios. Então fui contar para ele de um jeito que quase nocauteou ele:
EU PRATICAMENTE TERMINEI COM ELE.
Disse que estava grávida, que iria assumir o bebê, e que não esperava nada dele. Que ele não se sentisse obrigado a nada. E que ficasse à vontade para participar da maneira que achasse melhor: totalmente, um pouco, ou nada.
Vocês não imaginam como é a expressão de um cara, aos 23, prestes a infartar, rsrs.
Ele foi me deixar em casa (com meu carro, rsrs), e resolveu ir andando para casa dele.
Só que eu morava na Freguesia-quase-Anil, e ele na Taquara-quase-Boiúna. Pra quem não é do Rio -
longe pra caralho pra ir andando!Eu ofereci meu carro; que ele trouxesse depois - ele não quis. Eu ofereci grana a ele (eu tinha mais nessa época, minha mesada era mais gorda), pra ele ir de táxi, ou pegar um ônibus.
Ele me olhou bem profundamente, em choque ainda, e disse que não queria ter um tostão no bolso, senão entraria no primeiro boteco, e beberia até desmaiar.
Ele foi andando, e chorando. Demorou umas, sei lá, 3 horas.
Era de madrugada, mas tocou na casa do amigo de infância, hoje padrinho da Aimée. E conversaram longamente.
E esse foi talvez um dos últimos momentos de dúvida de ambos.
Ele, como bom moço, sugeriu casamento.
Eu, como boa maluca, recusei.
Que ele casasse comigo depois, um dia. Se realmente quisesse. Não por causa de filho.
Assim foi feito - casamos dois anos depois, e ela foi nossa daminha.
E nós não fomos casal margarina não (como diz a comadre Dani) - ele "se mudou" pro meu quarto na casa da minha mãe até a Memée nascer e fazer 6 meses, no aperto.
Nosso chá de fraldas foi um churrasco onde ganhamos tudo - presentes, fraldas, comida e bebida, rsrs.
Éramos duros de marré de sí!Mudamos pra um apartamentinho- ovo, com ajuda das famílias. Ganhamos montes de coisas de segunda mão. Eu lavava roupa na casa da minha mãe. A gente dormiu em colchonete no chão por um ano, rsrs.
Discutimos um sem número de vezes.Com ela bem pequena, começamos a abrir caminho- largamos as faculdades e fomos à luta. Eu trabalhei em lugares engraçados - de vendedora de loja a atendente de telemarketing. O B tinha dias que nem vía a criança, de tão tarde chegava. Eu cheguei ao cúmulo de trabalhar no turno da madrugada.
Nossos amigos foram incríveis. Ajudavam, faziam as bagunças na nossa casa, porque não podíamos sair. Nos davam um sem fim de coisas.
As famílias tb. Nos sustentaram por muito tempo. Ficavam com a pequena quando os arruaceiros aqui queriam vadiar.
Quando a criança nasceu, eu olhava pra ela e me perguntava"
e agora, José?!". Cadê o manual? Cadê o botão de desliga? Não fazia nem vaga idéia do que fazer. Mas tinha opiniões fortes a respeito, rsrs.
Aimée era linda desde o primeiro segundo fora da barriga (ok, mãe suspeita, rsrs).
O parto foi tranquilo, com mais de 50 pessoas na maternidade - parecia até coletiva de imprensa!! rsrs. Meu quarto foi "invadido" logo que voltei para ele. Eu adorava!
Para desespero dos "
mais velhos", levávamos ela para todo lugar, porque nossa vida social sempre foi bem intensa, e a gente não queria perder nada. Éramos tão crianças....
Eu enlouquecia todo mundo, amamentando e andando ao mesmo tempo. Dando de mamar em qualquer lugar, na frente de qualquer um. Parecia uma índia, rsrs.
Para mim,
peito é pra dar de mamar - tem que ser muito doente pra ficar olhando com maldade.
Eu nem ligava de chocar. Não gostou, supera.
Eu fiz um monte de merda. Nossa! Um monte.
Mas sempre digo que devemos ter feito alguma coisa muito certa também. A criança é incrível: bem ajustada, educada, inteligente, engraçada, e tem um coração enorme.
O mérito é dela mesma, é claro. (mas gosto de pensar que tivemos alguma coisa a ver com isso tb, rsrs).
A gente trocou papéis um monte de vezes - ela "se criou" sozinha em muitas ocasiões. Eu contei até 10 inúmeras outras, pra não tacar ela na parede, rsrs. Eu perdi muito a paciência, só pra morrer de remorso depois.
Mas sobrevivemos uns aos outros - ela a nós, nós a ela e ambos à nossa inexperiência.
Torceram mooontes de nariz pra gente. Eu perdôo - afinal, quais as chances de um negócio que começou assim dar certo, né? Mas eu tenho
MUITO ORGULHO da nossa história, e não me envergonho de assumir.
Ela não vai ler o post; é muito adulto.Mas o aniversário dela hoje trouxe todas essas memórias.
E me lembrou como eu a amo doidamente.
Que ela tenha um dia lindo, e seja a pessoinha mais feliz do mundo.
E vamos parar por aqui, que mamãe não é de ferro, e está se acabando de chorar.