terça-feira, 23 de novembro de 2010

PRA PODER DIZER ADEUS



"What I was really hanging around for, I was trying to feel some kind of a good-by. I mean I've left schools and places I didn't even know I was leaving them. I hate that. I don't care if it's a sad good-by or a bad good-by, but when I leave a place I like to know I'm leaving it. If you don't, you feel even worse."
Holden Caulfield in Chapter 1 

(esse trechinho acima é do livro O Apanhador nos Campos de Centeio)

Eu odeio não saber que estou dizendo adeus.
De repente uma situação se acaba, e você não sabia que a última que você viveu era a última. E aí não pôde se despedir.

O negócio me tocou quando a criança fez piada sobre cartinha pro papai-noel. Acabou a magia do papai-noel. Acabou mesmo, não sobrou mais nada da inocência do acreditar. Não que isso me aborreça- aconteceria mais cedo e mais tarde, e até que durou muito.
Mas só quando tive certeza de que tinha acabado, é que me bateu a melancolia de que podia ter aproveitado ainda mais o negócio, enquanto durou. Quem sabe ter curtido mais a última vez? Mas eu não sabia que era a última...

Nós somos bobos, né?
Uma pessoa diagnosticada com um câncer e com só mais 6 meses de vida, vai ter 6 meses de vida mais plenos do que nós, sem tal diagnóstico.
A gente precisa ter noção de que alguma coisa é uma despedida, pra poder dar valor a ela. Pra olhá-la e VÊ-LA.

A gente deveria lidar com as pessoas e situações como se dissesse adeus o tempo todo.
Porque a gente nunca sabe quando vai ser a última vez, pra poder se despedir.

Já vi isso um milhão de vezes.
A pessoa dá um beijo corriqueiro no pai, e ele sai e morre. E ela fica se torturando a vida toda de que gostaria de saber que aquele beijo era o último. De poder ter dito que o amava.
Ou você rompe com uma pessoa, e fica lembrando a última vez que vocês se amaram, e fica sofrendo, querendo ter sabido que aquela era a última vez, pra poder guardar na memória.
Você deixa de ir jantar com a sua avó, no natal, e depois não tem mais a oportunidade de jantar com ela. E fica lembrando como você foi desatento na última vez que a viu, e como não deu valor àquele jantar que era o último.
E você não sabia.

Eu fico com raiva.
Das minhas útimas coisas que não sabia que eram as últimas. Da perda que senti por não ter dado mais atenção a elas.

Culpa minha, claro. Culpa nossa.
A gente trata as coisas como certas e eternas. Took it for granted!
A gente esquece que o tempo não nos pertence - o tempo nos é emprestado!

Eu não quero mais ser assim!
Eu quero poder valorizar cada coisa como se fosse a última vez.
Eu quero tirar de mim essa sensação desagradável de que a última passou, e eu não sabia.
Quero tirar de mim essa impressão de impotência.
Essa culpa, esse remorso.
Esse gosto ruim que fica, quando a gente não pôde dizer apropriadamente adeus.

18 comentários:

Juh** disse...

Nossa Elise,essa é a mais pura verdade!
Esse post me fez refleti muito sobre como tenho agido.
beijos

Rick disse...

Querida amiga blogueira:

Perfeito e tocante!
Obrigado por me abrir os olhos!
Vc me surpreende e se supera sempre!

Beijas!

Mari disse...

Poxa Elise qdo vc aprender a ser assim me ensina ??? Não consigo aprender, so com as 'pancadas' da vida mesmo.

Bjo

Juliana disse...

Minha avózinha morreu, a pessoa que eu mais amava, e amo.
E quase eu não fui ve-la no dia anterior a sua morte, mas de tanto uma tia insistir acabei indo, eu sabia que eram os últimos dias dela e ficava todo horário de visita segurando as mãos dela, hidratando seus lábios, penteando seus cabelos e conversando... Ela estava em coma, mas sei que me sentia e ouvia.

Quando ela foi internada me senti culpada pela atenção que nao tinha dado a ela, por xingar qdo tinha que limpar seu peniquinho, qdo ela me pedia várias coisas. nunca, nunca vou me perdoar por isso, por achar que era eterno, que eu sempre teria a presença fisíca dela. Como eu pude ser tão estúpida? pq precisou ela ser internada, e sofrer por 3 meses pra eu perceber que um dia acabaria?

Acho injusto, se Deus existe ele é um filho da puta, pq queroa minha avózinha, porra! Quero limpar o penico, fazer comida, ouvir tudo que ela tinha pra dizer sem reclamar. Queria ter aproveitado mais.

Essa foi minha maior perda, já faz uns 2 anos, mas dói como se fosse o dia seguinte, pq no dia, eu ainda fui humana, ainda agradeci por ter acabado o sofrimento dela, mas e quando me dei conta que nao poderia mais acariciar os cabelos grisalhos dela?

Hoje eu faço as coisas que minha mãe pede sem reclamar, aguento melhor os surtos dela... talvez esteja aprendendo.

Ariane disse...

Vontade de chorar!!!

E sabe quando senti isso na pele mesmo!? As duas vezes em que sofri acidentes de moto, na pista, 100 km/h!
Quando cai pensei muito rápido e por cima em tudo o que disse! E passou a minha mãe pela minha cabeça... doeu muito!!!

laura disse...

estou vivendo isso nesse momento!!..SEM PALAVRAS.

Meg disse...

acho q o que mais dói no meu caso foi não saber que era a ultima vez..vi meu irmão no natal, ano novo cada um viajou para um lado, recebi a noticia q ele havia morrido, eu estava viajando..grávida..imagina?!?! poderia ter abraçado mais, beijado mais, não ter saido de perto dele de jeito nenhum...fica sempre a pergunta, um nó na garganta, uma revolta por não poder ter dito adeus...

Maela disse...

Bob quer ir para disney no carnaval, eu perguntei se ele tomou ácido.

Cheia de trabalho, de dívidas, apto ficando pronto e tendo que pagar 1/3 dele ainda e mobiliá-lo e o cara quer passear na disney?????

Ele me disse :

- Um amigo meu morreu semana passada, da minha idade e o puto só trabalhava, NÓS VAMOS PRA DISNEY!

Então vamos....

Bia disse...

eu penso muito nisso! Principalmente nas pessoas, pode ser a última vez que eu vejo, pode demorar muito tempo até juntar esse pessoal todo outra vez...
Aí dá até uma sensação estranha, como se eu tivesse vendo aquele momento de fora, como num filme. Aí fico toda boba pensando "nossa, como eu amo essas pessoas, como eu tenho sorte!" E no fim das contas diminui um pouco essa sensação de que as coisas passaram sem perceber.
Adorei o texto, vou dormir pensando nisso!
Beijos

Natasha disse...

Volta e meia eu penso nisso também...
Lembrei dessa cena de grey's anatomy, que eu amo:

http://www.youtube.com/watch?v=-Uv1EfmcYls

Beijo!

Jackie disse...

Puxa, fiquei triste mas ao mesmo tempo parei pra pensar que o corre-corre faz com que fiquemos mais frios e distantes de quem realmente nos importa... O tempo não pára, é bom que eu reveja alguns conceitos e atitudes, porque arrependimento depois é phoda!E eu odeio me arrepender, fica um gosto ruim na boca e na mente.
Adorei o post, muito sensível.

Isabella Ramiro disse...

Eu e minha sensibilidade amamos o texto. É exatamente o que eu penso. mas não consigo expressar. Saca?
Vamos viver, e mais que isso, vamos viver para e com as pessoas que amamos. Amanhã pode ser tarde.
Um beijo.

Andréa disse...

É exatamente isso que eu estou sentindo.
Vc disse tudo.
Semana retrasada eu estava fazendo compras num supermercado que fica exatamente ao lado,grudadinho mesmo,da casa da Rosinha.
Olhei no celular e era 11:20 hs da manhã.
Me deu uma vontade de passar na casa dela,dar um abraço,mas fiquei com vergonha por causa do horário e desisti.
Tô aqui,me corroendo de arrependimento por não ter ido.
Perdi a chance de dar o último abraço e de receber aquele sorrisinho fofo de volta.
Mas vou mudar,valeu pelo chacoalhão.
Não se espante se um dia eu estiver aí,sem motivo algum,na sua porta,lá pela hora do almoço.
À propósito,que dia será nosso almoço de Natal?
Preciso comprar minhas passagens.
(nada oferecida e muito carente de amiga)

Daniel disse...

Elise, BELO POST.
Adorei, cativante e reflete a necessidade de viver o hoje intensamente.

Maela, entendo plenamente seu Marido, acabei de escrver um Post ambém, muito motivado por esse e fatos que acoteceram nos últimos dias.

Em resumo, preciso levar meus filhos para a Disney. Eles crescem muito rápido e mesmo sendo um centro capitalista do império (WTF), eu levarei eles para lá. ASAP.

Beijos a todas saladetes,

Do saladeto, Daniel

Daniel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana Leal disse...

É, minha amiga, você tocou no meu nervo sensível. Na véspera da morte da minha avó, eu não fui ao hospital porque estava cansada (tinha renovado o visto e acordei cedíssimo).
Mas se eu soubesse que ela ia morrer no dia seguinte, teria ido de qualquer maneira me despedir no hospital.
Agora...é chorar sobre o leite derramado...

Natty Oliveira disse...

Q engraçado, escrevi sobre o mesmo assunto ontem, ve lá...

http://www.doqueeugosto.com.br/2010/11/uma-pausa.html


Mas essa é a realidade, só temos o agora pra viver, o depois... Fica pra depois!

Elise Machado disse...

Chéries.. não queria deixar ninguém choroso não, viu?
Mas tou feliz pacas de ter tocado vocês :)

PS: Dani, sempre que leio "saladeto", sorrio :)