quinta-feira, 18 de novembro de 2010

UMA MENSAGEM DE AMOR ÀS MINHAS TATTOOS


"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros..." - Caio Fernando Abreu.

Estava conversando com um amigo sobre sei lá o quê ontem à noite, quando me dei conta.
Do tanto que amo minhas tattoos.

A gente leva tantas marcas e cicatrizes no corpo, e a maioria delas não pôde escolher.
Das surras que levamos, emocionais e física, às vezes só sobram as cicatrizes na alma.
Marcas do que nos aconteceu, do que nos fizeram.
Mesmo tendo sumido a maioria das marcas no meu corpo, e as cicatrizes estejam esmaecidas, as marcas que ficaram por dentro queimam, pesam; mesmo sem que os outros tomem conhecimento delas.

Tatuagem é a marca que você escolhe.
É a que te dá orgulho. Te faz ter uma sensação de controle sobre o próprio corpo.
Ela é pra ser carregada como uma lembrança, uma memória de alguma coisa.

Minha primeira tatuagem foi pelos meus 18 anos.
Maioridade. Vida adulta. Um marco do que eu desejava ardentemente - poder ser dona de mim enfim!
A segunda pelos meus 21. A consolidação de que eu me pertencia.
De que ninguém podia reivindicar mais nada do meu corpo, que eu não estivesse disposta a dar.
E a terceira, a recente, pra me lembrar. Me trazer pro chão.

"Somos todos loucos aqui", ela diz.
Pra me obrigar a me lembrar da minha própria loucura. Da minha própria estranheza.
Pra me igualar com o resto da humanidade. Um lembrete de que a minha verdade é minha. E que cada um vive dentro das próprias loucuras. Da própria realidade.

Ela me avisa, todo dia, que o normal não existe.
Me acautela de como o ser humano pode ser tão incoerente, tão insano.
Como eu tenho que ter humildade antes de julgar as posições dos outros.
E me lembrar que as minhas certezas não são absolutas - são só parte dos meus delírios. Que eu não posso esquecer do que os outros são capazes. E que eles te surpreendem nas suas maluquices.
E que o mundo é estranho sim.

A minha próxima está escolhida.
Estou ansiando por ela.
Ela vai virar a marca física, dolorida e visível, das marcas que ficaram em mim esse ano.
As piores.
As mais duras.
Talvez as maiores cicatrizes que eu já tive.
Ela vai me lembrar a que eu sobrevivi, mesmo que ninguém saiba. Ela vai ser meu troféu.
E vai ser um aviso em neon para que eu nunca me esqueça do que é que realmente importa na vida.

Sim, ela vai ser uma frase. Uma declaração. Porque eu descobri que o que me representa melhor são as palavras, que eu tanto amo.
Muito mais do que as imagens.

Não vou contar.
Depois que estiver pronta, venho mostrar.
Mas ela já existe, na minha cabeça.
Essa marca de agulha e tinta, que vem cobrir uma marca de lágrimas.
Essa outra marca maravilhosa.

9 comentários:

Carol Monteiro disse...

Que declaração... Amei o post.
Tenho uma vontade louca de fazer uma tatoo, me falta mesmo é coragem pra enfrentar os homens da casa, meu pai e meu marido... Mas um dia eu faço...um dia!
bjoo

Val- Coisas da Val disse...

Sabe q sempe tive vontade de fazer tatoo. Mas nunca encontrei um desenho/frase q tivesse um significado especial. Qdo era adolescente, tinha uma idéia q tatoo era transgressão, queria fazer uma pra ser diferente. Mas tô achando q vai ser mais diferente se ficar sem, rsrsrs!
Um dia eu resolvo!
Já disse q adoro o Salada?

Livia disse...

E aí, lacaniana? Rs.
Tenho quatro tatuagens, cada uma delas também representando, além de um desenho e frase que me dizem muito, um momento específico da vida.
Marcar o corpo não é uma coisa qualquer mesmo. Não é um simples enfeite.
E você está certíssima em escrever algo que diz respeito a momentos ruins, é uma forma de libertar-se deles.
Escrever no corpo é uma tentativa nossa de tornar a palavra real, de fazer a linguagem atingir o físico, de mostrar que são elas, as palavras, que nos constituem. Lembrei de um filme que assisti, chamado "Livro de Cabeceira". Achei essa resenha na web:
http://blogdogutemberg.blogspot.com/2006/06/livro-de-cabeceira-de-greenaway.html
Acho que você vai gostar.

Elise Machado disse...

Oi, lívia!
Então você é a minha companheira de psicologia, hein? rs

Legal a indicação, vou lá ver!
Bjas.

Ariane disse...

Lise, tenho 2 tatuagens, amo e acho lindo!!!

A minha primeira foi parecida com a sua!
Já a segunda é tão, mais tão especial!!!

É uma marca que eu escolhi, que eu quero mostrar, que eu me orgulho!!

Podem falar o que quiser, eu não ligo e sei que elas não mudam meu caráter!!!

Anônimo disse...

já pode ter outras profissões: estivador ou quem sabe seguir carreira na marinha.
com esse monte de tatoo vai ser bem aceita. rsrsrrs

Elise Machado disse...

Hum, sempre quis seguir carreira na marinha americana... será que consigo ser um Seal?? rs

Anônimo disse...

Elise, eu amei seu post. Tenho 17 tattoos, as 2 primeiras (sim, logo de cara já fiz 2) foram aos 26 anos, bem consciente do que eu queria.
Tenho o Cheshire Cat tatuado na omoplata esquerda, também pelo mesmo motivo que vc. tatuou a frase dele - quem é normal e quem é louco? Todos somos loucos aqui!
E quanto às frases, tenho duas delas, ambas em italiano. Uma bem suave, para marcar um momento feliz, e outra mega agrssiva, pq. a cabeça esquece, a cicatriz vai pagando, mas a tattoo está ali para não me deixar esquecer, nunca.
E estivador e marinheiro são profissões dignas, by the way.
Beijos, Cris Yumi

Anônimo disse...

e quem disse q não são dignas?
só disse que desde q o mundo é mundo tattos vem dessas profissões. longe de mim espinafrar alguém...muahahahha